Roger Cunha

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O NOME: ROGER CUNHA RODRIGUES – PATRONO DA INSTITUIÇÃO
Nossa Instituição tem como linha de trabalho promover o Mundo Unido o que inclui a formação de pessoas com atitudes novas diante da vida, uma fé renovada num Deus amantíssimo, portadores de amor por todos no coração, protagonistas da solidariedade e promotores da Paz. Estes ideais espirituais são oriundos do Movimento dos Focolare, um movimento cristão fundado na Itália na época da segunda guerra mundial que tem como objetivo criar um Mundo Unido através da vivência dos valores do Evangelho sendo, portanto sua espiritualidade chamada de Espiritualidade da Unidade. O Centro Social Roger Cunha Rodrigues é uma ação social do referido Movimento.
Ao pensarmos em um nome para a Instituição, desejamos que fosse significativo para todos que privam do nosso cotidiano. E, sobretudo, que estivesse em sintonia com a linha deste trabalho.
Conhecemos e acompanhamos um menino, que tinha 4 anos de idade, sofria de leucemia, chegou na comunidade – Monte Sião, na época – vindo de Parintins com seus pais e irmã e que impressionava a todos que dele se aproximavam pela sua resiliência, fé e amor com que vivia aquele episódio de muito sofrimento com a doença. A criança apresentava uma fortaleza inexplicável aos olhos humanos testemunhando uma profunda comunhão com Deus em Jesus Cristo, na trajetória de sua vida curta de sofrimento proporcionado pela doença.
Edificados por tal comportamento que a todos servia de reflexão para uma reformulação de vida, percebemos que aquele menino era referência de amor e bondade para qualquer pessoa. Ao se dar sua passagem para outra vida, já com 9 anos, decidimos, com a permissão dos pais dele, adotar seu nome como patrono da Instituição. Foi assim que aquele trabalho social que começou com o simples nome de “Escolinha” passou a chamar-se, “Escola Roger Cunha Rodrigues. Roger era o patrono ideal para nossa instituição, pois sua vida refletia todos os valores do nosso trabalho. Contar a história do Roger passou a ser uma práxis na Instituição posto que era a encarnação dos valores que queríamos apresentar para todos os usuários do Centro Social, à época Escola.
Por tudo isso, achamos que seria interessante, contarmos um pouco sua história aqui nesse espaço virtual, para que todos, como nós, usufruam dessa história edificante perpetuada pelo Amor com que viveu essa vida o nosso Roger Cunha Rodrigues. A leitura deve ser feita com a alma posto não tratar-se de uma simples biografia de um patrono com grandes feitos humanos. Os feitos de nosso patrono transcendem. Estarão aqui contados em forma de episódios que transparecem uma grande alma num ser tão pequenino e frágil. É isso que edifica.

Os relatos são feitos pelos pais e por amigos de Roger.

BIOGRAFIA DE ROGER CUNHA RODRIGUES

Experiência de vida
Roger nasceu em Parintins no dia 22 de novembro de 1986, filho de João Saúde e Rosely.
Somente aos quatro anos de idade foi detectada uma doença grave, leucemia. Pela complexidade dos tratamentos, que deveriam ser iniciados imediatamente, o casal teve que se transferir imediatamente de Parintins para Manaus.
Este casal tinha algum contato com o Movimento dos Focolares, especialmente o esposo. Chegando em Manaus este contato se tornou mais intenso e foi espontâneo o inserimento deles em Famílias Novas ( grupo de famílias deste Movimento).
Por serem pobres e precisarem de ajuda no tratamento de Roger, o Movimento deu todo o apoio espiritual e, paulatinamente, arranjou-se trabalho para o esposo e uma casa, colocada à disposição por um membro do Movimento.
Toda experiência de amor concreto feito pelos membros do Movimento dos Focolares, ajudou o casal a crescer espiritualmente e consequentemente fazer com que Roger desse passos gigantes de alma, amadurecendo no relacionamento com Deus.
Muitas vezes Roger mostrou atitudes concretas de ser pai e mãe espiritual dos próprios pais, ensinando-os qual deve ser a medida de fé e de relacionamento com Jesus.

1. Roger fala com Jesus como amigo íntimo, uma pessoa de sua mesma idade.
Disse Roger: “Mamãe, vou lhe contar uma coisa que aconteceu hoje (21/10/1992), JESUS falou comigo dizendo que às vezes faço o que aborrece a senhora, ou a Jéssica (sua irmãzinha) ou quando não quero tomar os medicamentos, ficando aborrecido, ELE não gosta. Mas é tão suave o seu não gostar que me ajuda a recomeçar e sentir todo o seu amor por mim.

2. Experiência no HEMOAM- banco de sangue
Conta Rosely: um dos dias que levei Roger para os exames do controle da doença, a médica me disse que devia esperar um certo tempo, porque, pela aparência, ele devia fazer transfusão de sangue ou de plaquetas. Então ele caiu no choro. Alguns minutos depois, ele parou de chorar ficando muito tranquilo e me contou – “ Hoje não vou tomar sangue porque disse para JESUS que não queria tomar sangue nas veias e pedi para ELE que me desse o Seu Sangue, pois, assim como ELE sofreu muito na cruz, ELE iria me compreender e fazer entrar em mim o seu sangue e não seria preciso tomar sangue nas veias. Por isso estou tranquilo”.
Quando a médica voltou disse que Roger não precisaria tomar sangue naquele dia.
Ele pulou de alegria e me disse: “Eu não lhe falei, mamãe, que JESUS tinha me dado o Seu Sangue?!

3. Relacionamento de Jesus em Meio na família
Obs.: O termo “ Jesus em Meio” se baseia na palavra de Jesus no Evangelho que diz:” – Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome eu estarei ali.” A vida no amor recíproco realiza esta promessa e é desta forma que as famílias do Movimento procuram viver.
O relacionamento de JESUS em meio na família ajudou muito o Roger, também quando estava internado no hospital a ser exemplo de amor entre seus coleguinhas que possuíam a mesma doença.
Quando uma menina ia fazer tratamento (tomar sangue) dizia muitos palavrões. Roger comentava dizendo perceber da tristeza que JESUS sentia e, assim, para mudar o ambiente, procurava fazer muitos atos de amor concretos.
Era notória a sua delicadeza pela harmonia. Enquanto seus coleguinhas jogavam papel no chão, deixavam a cama desarrumada, Roger, para manter também um sinal aparente de sua harmonia no relacionamento com DEUS, procurava deixar tudo limpo, também a cama bem arrumada.

4. Com as enfermeiras no hospital
Uma das enfermeiras, logo no início, tratava mal o Roger e as outras crianças. Alguns dias depois, foi se percebendo uma mudança nela pois passou a ser mais delicada com ele e com as outras crianças.
Uma delas dizia:” Roger é uma pessoa muito especial, é especial…!”
Outra gostava de ir frequentemente até o seu leito porque dizia sentir-se bem, estando ali com ele.

5. Numa meditação com sua mãe
Estávamos lendo a parábola da multiplicação dos pães e os milagres das bodas de Caná. Comentando as parábolas ele disse: “É verdade, mamãe, JESUS não deixa faltar nada. Quando falta leite, logo ele pede a alguém e de repente o leite chega para nós. Falta água na rua, mas logo chega”.
Até a casa que a gente não tinha, ELE pediu a Márcio (o membro do movimento que cedeu sua casa para a família morar) que se transferisse para Belém para que a gente pudesse morar aqui. Ele muda tudo, dando a nós tudo o que nos falta.

Esta era a oração espontânea e diária do Roger:

“Papai do céu, eu te agradeço pela vida, por tudo que nos destes: esta casa, este armário, este alimento, este banquinho, por tudo…”
Eu te agradeço, JESUS, porque me curaste!
Eu sei que sofreste e que morreste por nós.
Sei que te pregaram numa cruz e te mataram.
Mas sei também que ressuscitaste e que agora tu estás vivo.
TU ESTÁS VIVO!
No hospital, JESUS, tu sabes que eu sinto muitas dores quando preciso tomar sangue e fazer exames.
Mas ofereço tudo a TI, pois, sofreste mais do que eu.
Te peço que Tu cure os meus amiguinhos que estão no hospital para eles saírem logo de lá”.

(Este relato foi feito por Juscelino Oliveira e lido no velório de Roger no dia 30/10/1992)

6. SUAVE SINTONIA
Conta o pai, João: Uma noite cheguei do trabalho um pouco depressivo. Comecei a pensar em tudo aquilo que estava acontecendo conosco. Senti uma grande necessidade de buscar DEUS. Peguei a Bíblia, abri aleatoriamente uma página e li. Não lembro do conteúdo do texto, mas aquilo serviu para introduzir uma conversa profunda, espontânea e sincera entre mim e DEUS.
No dia seguinte, como de costume naquele período, fui ao hospital para revezar com Rosely, que ficava com ele pela tarde e de noite.
Assim que cheguei, Rosely disse que ele, Roger, comentou que sabia que eu havia conversado com JESUS na noite anterior. Fiquei surpreso e ao mesmo tempo muito contente.
Afinal, aos poucos, começávamos a aceitar com naturalidade fatos desse tipo.

7. A “PORTA” QUE SE ABRE
Tantas vezes Roger precisou ficar em isolamento num apartamento. Ali, a sós com Rosely, confidenciava suas impressões mais íntimas. Uma delas aconteceu quando a porta, que estava entreaberta, abriu-se por si mesma, empurrada pelo vento. Ele disse:” Olhe, mamãe a porta se abriu!” Rose disse: “Foi o vento, meu filho!” E ele abrindo aquele sorriso maravilhoso:” Não, mamãe, foi JESUS que entrou aqui conosco! Eu vi Ele entrar!” Rose ficou impressionada e meditava estas coisas em seu coração.

8. AS BOLINHAS DE GUDE
Certa vez, como havia se manifestado uma melhora na saúde fomos ao shopping para levar Roger e Jéssica para passear um pouco. Visitamos um supermercado e logo os dois passaram a revirar os brinquedos e dizer-nos os de sua preferência. Jéssica queria uma boneca da Barbye e ele queria um cart, tipo ferrari. Veio todo contente dizer que já havia escolhido o que queria que comprássemos para ele. Eu e Rose trocamos um breve olhar e coube a mim a tarefa de dissuadi-lo. Procurei justificar que não podíamos comprar aquele carrinho. De início ele chorou muito; bateu o pé insistindo. Pedi-lhe que procurasse outro brinquedo. Meio desconfiado, foi se afastando novamente para dentro do setor dos brinquedos, acompanhado de Jéssica. Daí a pouco chegou trazendo um pequeno objeto em uma de suas mãos. Chegou perto, mais alegre e disse:” Papai, gostei muito dessas bolinhas! O senhor pode comprar?!”
Não só pude comprar e comprei como as guardo até hoje.
Apesar de ser criança e gostar dos objetos que achava interessante, parece que ele, naqueles sete anos de vida, sabia que o consumismo podia ser controlado e que, portanto, perdendo aquele seu desejo de posse do carrinho, dizia que é possível se divertir e ser feliz com as coisas simples da vida.
A partir daquele dia, todas as vezes que ia brincar, sempre incluía entre os outros brinquedos as tais bolinhas e, sempre que eu estava em casa, quase me forçava a brincar com ele.
Era sempre uma festa, porque, se por um lado eu queria aproveitar para “curtir” ao máximo aqueles momentos que eu estava em casa e ele fora do hospital, por outro, sabia que cada momento com ele era precioso, pela sua pouca perspectiva de vida. Era fácil fazer-se um com Roger.
Obs: “Fazer-se um” – termo usado no Movimento quando por amor nos colocamos ao lado do outro atento a suas necessidades. Estar junto com…

9. O PROTETOR DO PAI
João relata: As manhãs ou os dias completos, quando estava de folga do trabalho, que passava com ele no hospital, estreitava muito entre nós a união. Sabia que ali podia Ter sempre JESUS no meio.
Tantas vezes sofri junto quando precisava fazer coleta de células de sua coluna sem anestesia ou nas coletas de sangue sempre difíceis, já que sua pele ficou endurecida e a perfuração era muito dolorida. Depois que se perfurava a pele, a outra tortura era localizar a veia, igualmente escorregadia e endurecida.
Estando tudo bem, as enfermeiras sempre vinham fazer as visitas de rotina. Todas gostavam dele e procuravam fazer brincadeiras para ajudá-lo a tomar os medicamentos prescritos pela médica.
Numa dessas visitas, uma enfermeira tirou uma brincadeira, insinuando assédio, em relação a mim. Imediatamente, ele sentou na cama e começou a xingá-la: ” Saia daqui! Deixa o meu pai sua chata!”
Ele desconhecia o meu passado, mas parece que tinha a exata noção do perigo que eu corria, sem a sua interferência.
Assim que ela saiu, ele me abraçou e me chamou de papaizinho.

10. A MANINHA
Não era só comigo e Rose que tinha esse cuidado especial.
Um dia uma amiga nossa deu-lhe um bombom.
Ele ficou contente e em seguida disse:” Eu não vou comer tudo porque quero deixar um pedaço para minha maninha!” Porém, ela disse que ele podia comer, que ela lhe daria outro para levar para sua irmã. Então ele comeu e realmente guardou o outro.

11. CAMPEÃO EM AMAR POR PRIMEIRO
No hospital não era permitido levar colchão para o acompanhante. Depois que ele tomou a medicação daquele horário, aproveitei para deitar um pouco no piso.
Quando acordei, ele estava chegando de volta ao seu leito. Preocupado, perguntei o que ele estava fazendo. Ele disse: ” Papai, eu queria fazer xixi. Vi que o senhor estava dormindo e não quis lhe chamar, mas está tudo bem”.
Para mim aquela atitude dizia muito mais que o simples fato de não querer me acordar. Significava toda a sua sensibilidade e a concretude em amar o outro por primeiro.
São muitos os relatos desta natureza feitos por quem conviveu com esse menino. Nisso se constitui o legado e a biografia do patrono desta Instituição. Uma alma que em tão pouco tempo encarnou todo Amor e fé com que nós todos da Instituição nos esforçamos para vivenciar através deste serviço que prestamos às crianças, adolescentes e as famílias da Comunidade onde estamos inseridos.